quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O Templo de Jerusalém e as principais seitas do judaismo

O TEMPLO DE JERUSALÉM E AS SEITAS PRINCIPAIS DO JUDAÍSMO


Por João Alves dos Santos, M.D., M.Th

O TEMPLO DE JERUSALÉM

No tempo de Jesus, os judeus tinham como ponto máximo de sua religião o Templo de Jerusalém. Na verdade, o Templo de Jerusalém era o único lugar legítimo onde o povo judeu podia oferecer seus sacrifícios.

O Templo foi construído pelo rei Salomão no séc. X a.C. em atendimento a uma ordem divina. No séc. VI a.C. foi destruído durante a invasão de Nabucodonosor. Cinquenta anos após sua destruição, Zorobabel ordenou sua reconstrução, mas o Templo apenas alcançou sua beleza e suntuosidade durante o reinado do rei Herodes o Grande, já nos tempos de Jesus. Contudo, as obras de embelezamento só terminaram por volta do ano 64 d.C. e o Templo terminado durou pouco tempo: no ano 70 d.C., os exércitos do imperador romano Tito arrasaram Jerusalém e, consequentemente, destruíram o Templo, símbolo máximo do judaísmo.

O templo erguia-se sobre uma grande esplanada a nordeste de Jerusalém. Possuía grandes pórticos nos quatro lados, mas os mais famosos eram: o do sul, chamado Pórtico Real e o do leste, chamado Pórtico de Salomão. O Pináculo do Templo achava-se perpendicular ao Vale do Cedron. No centro da esplanada, uma grande balaustrada retangular separava os gentios da área do Templo (o gentio que tentasse acessar os limites do Templo era punido com pena capital); era chamado de Átrio dos Gentios e era sempre invadido por cambistas e vendedores de pombos e cabritos. O Templo ainda possuía: o Pátio das Mulheres, o Pátio dos Homens e o Pátio dos Sacerdotes, onde localizava-se o altar dos holocaustos.

No centro, o Santuário do Templo achava-se dividido em duas grandes salas: o Santo, com o altar de ouro para a queima do incenso, a mesa das alfaias e o candelabro de ouro de sete braços; e, separado por um grande véu, o Santo dos Santos que, na época de Salomão, guardava a Arca da Aliança com as Tábuas da Lei. Neste último recinto, somente o sumo-sacerdote podia entrar e, mesmo assim, somente uma única vez ao ano.

Para a manutenção do Templo era cobrado do povo: o dízimo, referente a 10% das colheitas; 1% para os pobres; e, a cada sete anos, o produto referente a um ano de trabalho.

Durante as grandes festividades, principalmente a Páscoa, aproximadamente 60 mil pessoas vinham visitar o Templo, triplicando a população de Jerusalém.

AS SEITAS PRINCIPAIS DO JUDAÍSMO

SEGUNDO o historiador Flávio Josefo eram três as seitas ou partidos em que estava dividido o judaísmo nos últimos dois séculos anteriores à era cristã: os fariseus, os saduceus e os essênios. Com exceção da seita dos ebonitas, da qual nos ocuparemos extensamente por sua importância e transcendência, não se pode afirmar com segurança que hajam existido outras seitas antes destas.

A única entre as mais antigas manifestações de diferenciação que teve quase o caráter de uma seita foi a dos Nezirim. Eles, todavia, distinguiam-se mais pelo aspecto exterior de tipo ascético que pela própria crença. Suas características eram essencialmente negativas: abster-se de toda bebida alcoólica, não cortar o cabelo, fugir das impurezas rituais, sobretudo de todo o contato com um cadáver. O nazireado podia ser de dois tipos: um praticado raramente "ad vitam" e outro a tempo determinado de livre escolha. Sansão e Samuel são os dois representantes típicos destas classes. Parece que o costume do nazireado continuou até a primeira geração cristã. As regras para o nazireado encontram-se expressas em Números, VI. O nazir era considerado como pessoa sagrada e entre os mais graves delitos estava o de obrigá-lo a transgredir seu voto.

ESSÊNIOS
Uma das seitas importantes no período do segundo Templo era a dos essênios. A origem do nome não é muito segura. Há quem o ligue a raízes gregas, aramaicas ou hebraicas, mas na realidade seu significado é obscuro. Pelo que se sabe de suas características, o significado mais apropriado seria o de "puros" ou "pios".

O essenismo constituiu, nos séculos que vão desde o ano 150 (A.C) ao 70 (D.C.), uma comunidade religiosa judaica que tinha algumas características essenciais que afastavam-na do Templo de Jerusalém. As fontes que temos encontram-sem em Filon e Flávio Josefo. Parece que os essênios viviam, de preferência, nas planícies e que uma de suas principais sédes estava instalada no oásis de En-guedi sobre o Mar Morto. Constituiam sobretudo uma ordem monástica; não se casavam e sua comunidade perpetuava-se somente com a associação de novos membros. Não procuravam lucros pessoais, todos trabalhavam pelos congregados, com os quais viviam em comum. Para ingressar na confraria deviam passar por diversas fases de noviciado; por sua sinceridade consideravam reprovável o juramento; seguiam rigorosas regras de pureza tomando banhos freqüentíssimos e usavam trajes brancos.

De sua teologia e de suas doutrinas se conhece muito pouco. Não se sabe se tiveram outros livros sagrados além do Pentateuco. Parece que a idéia que eles tinham sobre a imortalidade limitava-se a considerar que a alma veio do céu e a ele volta depois da morte do corpo, se o mereceu. Presume-se que atribuiam muita importância à magia e à arte de prever o futuro. Consideravam um dever mostrar-se fiéis à autoridade nacional constituída, mas não à estrangeira. Com efeito, no ano de 66 uniram-se aos celotes na revolta contra Roma. Tinham algumas particularidades que os afastavam do

Templo de Jerusalém; a abstenção do matrimônio, a abstenção dos sacrifícios ensanguentados e o rito da prece olhando o sol. Estes elementos são, na realidade, estranhos ao judaísmo e parecem haver chegado ao essenismo por via sincrética, aproveitados de tantas religiões que corriam pelo Oriente. Não se pode determinar com exatidão se neste sincretismo intervieram a órfica, o helenismo em geral, o budismo ou o paganismo sírio-palestinense.

Parece muito provável que o essenismo contribuiu não só para o advento do cristianismo mas também para a sua difusão. Na realidade, as distintas seitas judeu-cristãs apresentam muitas afinidades com o essenismo.

FARISEUS
Com este nome indica-se a seita mais importante que houve no judaísmo do Segundo Templo. Sua origem é incerta; parece que derivaram dos "hassidim", dos "pios" do templo dos macabeus e que formaram sua congregação paulatinamente, apoiando sua fé, sua crença e seu culto sobre a Lei Escrita e a Lei Oral, que os saduceus não aceitavam.
Não parece exato que sua formação remonte ao ano 175 (A.C.), quando houve uma cisão no Sanedrin. Suas doutrinas têm uma origem muito remota. Seus adeptos pertenceram ao povo, ao contrário dos saduceus que pertenciam à aristocracia. Por haverem saído dos fariseus todos os grandes doutores dos últimos séculos antes de Cristo e primeiro depois de Cristo, doutores que criaram a Mishná e, mais tarde, o Talmud, a seita dos fariseus foi a mais importante no judaísmo. Politicamente foram favoráveis a qualquer forma de governo que não opuzesse obstáculos ao seu culto. Suas doutrinas são praticamente as que chegaram até nós através da Mishná e do Talmud.

Permitam-nos abrir aqui um parêntese, não para fazer uma defesa ou apologia do farisaísmo, mas para estabelecer a verdade histórica acerca desta seita, tão imerecidamente combatida por alguns escritores sectários, para os quais fariseu seria sinônimo de hipócrita e impostor.

Os fariseus foram os continuadores da seita dos "hassidim" ou piedosos, formada pelos mais renomados doutores do Talmud: Johanan ben Zacai, Rabi Aquiba, Simão ben Yohay, Gamaliel, Hilel, Ben Azay, inclusive Saul de Tarso que mais tarde trocou seu nome para São Paulo. Eram homens que cumpriam zelosamente não só as leis escritas, mas também os costumes conservados oralmente. Distinguiram-se por sua conduta moral e sua moderação na vida.

Deixaram dispersos aqui e ali, no Talmud, numerosas máximas e sentenças dignas da meditação de todo homem culto, sincero e imparcial. Citaremos algumas delas:

"A verdade é o selo de Deus"

"Mais que toda ação religiosa, Deus quer um coração puro"

"Toda oração deve ser precedida por um ato de caridade"

"Aquele que comete uma falta em segredo, nega a onipotência de Deus"

"Se Deus reserva a recompensa das boas ações para o mundo futuro é com o fim de que os homens ajam neste mundo por convicção e não por interesse"

"Sêde dos discípulos de Arão, amai a paz e sacrificai tudo para mantê-la"

"Não julgues teu próximo até que te encontres no lugar dele"

"Julgai todo mundo com indulgência"

"Não envergonhai o próximo em público, porque isso poderia custar-lhe a vida e seríeis um criminoso"



"Mais vale estar entre os perseguidos que entre os perseguidores"



"Não te metas em nenhum assunto do qual possa resultar condenado à morte ainda que culpado"



"Ditoso o homem que sai deste mundo, limpo e sem pecado, como entrou"


Esta e outras centenas de máximas que o farisaísmo nos legou falam eloqüentemente da pureza de sua moral e de sua conduta e estabelecem irrefutavelmente que o sentido depreciativo que se lhe atribui não é outra coisa senão obra de quem estava interessado em caluniá-lo.

CELOTES

Ao lado destas três seitas maiores desenvolveu-se outra que teve sobretudo importância política, a dos celotes. Celote, "kana" em hebraico, significa zeloso de algo. Durante a dominação romana foi uma seita rigorosíssima na observância da lei judaica e que perseguiu a independência territorial a mão armada. Sua primeira manifestação política deu-se no início da dominação romana.


SADUCEUS

Também para esta seita ou partido é difícil determinar a origem. Sabemos que existiu nos últimos dois séculos do Segundo Templo, em completa discórdia com os fariseus. O nome parece proceder de Sadoc, hierarca da família sacerdotal dos filhos de Sadoc, que segundo o programa ideal da constituição de Ezequiel devia ser a única família a exercer o sacerdócio na nova Judéia. De modo que, dizer saduceus era como dizer "pertencentes ao partido da estirpe sacerdotal dominante". Diferiam dos fariseus por não aceitarem a tradição oral. Na realidade, parece que a controvérsia entre eles foi uma continuação dessa hostilidade que havia começado no templo dos macabeus, entre os helenizantes e os ortodoxos. Com efeito, os saduceus, pertencendo à classe dominadora, tendo a miudo contato com ambientes helenizados, estavam inclinados a algumas modificações ou helenizações. O conflito entre estes dois partidos foi o desastre dos últimos anos da Jerusalém judia.



Suas doutrinas são quase desconhecidas, não havendo ficado nada de seus escritos. Com muita probabilidade, ainda que rechaçando a tradição farisaica, possuiram uma doutrina relativa à interpretação e à aplicação da lei bíblica. O único que nos oferece alguns dados sobre suas doutrinas é Flávio Josefo que, por ser fariseu e por haver escrito para o público greco-romano, não é digno de muita confiança.



Parece provável que as divergências entre saduceus e fariseus foram mais que dogmáticas, foram jurídicas e rituais. Com a queda de Jerusalém, a seita dos saduceus extinguiu-se. Ficaram porém suas marcas em todas as tendências anti-rabínicas dos primeiros séculos (D.C.) e da época medieval.


EBIONITAS

Dissemos que reservaríamos algum espaço para a seita dos ebionim ou ebionitas, cujo desenvolvimento abrange as épocas desde o profeta Samuel, ou seja, o século IX (A.C.) até o século II (D.C.).



Foi o profeta Samuel, que viveu há 2800 anos, que procurando na união a força de seu povo, e a pedido deste, instituiu a monarquia e fez proclamar Saul, rei de Israel. Este reino era então administrado por juízes com um sistema autônomo de descentralização democrática. Foi também Samuel que formou a seita dos ebionitas ou "humildes", integrada pela "elite" intelectual da juventude de então e cujo principal objetivo era ensinar mediante a prédica, a propaganda e o exemplo. Quase todos os profetas que dali surgiram, entre os quais estavam Isaías, Oséas, Miqueas, Habacuc, Amós, etc... são astros luminosos que aclararam e honraram a seita. Os eleitos que chegavam ao último grau de instrução e de iniciação estavam encarregados de promover reuniões de propaganda para difundir seus princípios, para instruir e moralizar o povo. Saíam sempre em grupos "Lahakat Haneviím", reuniam-se em lugares altos onde executavam cantos e danças sagradas ao som de harpas, flautas e violinos. O povo aglomerava-se ao redor deles, e quando a multidão era compacta e sentia-se emocionada pela música, os mais eloqüentes dentre eles pronunciavam discursos inflamados convidando-o a afastar-se do mal, do vício, da mentira, da injustiça e da iniqüidade. Eram exortados a praticar a caridade e a justiça, a amar a verdade e a virtude, e depositar sempre confiança e esperança na Providência e a ter fé no porvir da humanidade. A palavra eloqüente desses oradores e a sua música exerciam tal poder, que os ouvintes, nos refere o historiador Gräetz, cheios de entusiasmo caíam em êxtase e sentiam-se transformados.



Estes fervorosos apologistas da profecia, acrescenta Gräetz, dirigidos por Samuel e elevados pelo espírito divino, desempenharam uma parte considerável na revolução moral que se operou naquela época. O filósofo grego Teofrasto, sucessor de Aristóteles, em seu livro "Os caractéres" nos conta as palestras que manteve com os chefes ebionitas em sua visita à Palestina e participa de suas opiniões em detalhes interessantes.



Depois da morte de Samuel, o profeta Natan e depois dele Gad e o profeta Elias, foram sucessivamente chefes supremos da Ordem. Com a morte deste último, houve dificuldade de eleição entre Isaías, Osías, Miqueas e Amós, dizendo-nos a este respeito o Talmud: "Vegadol shebeculam-Hoshea", o que quer dizer que Oséas prevaleceu sobre os outros (Talmud Pessachím, 87). Sob sua direção a seita foi reorganizada numa base completamente nova, mais espiritual e mais moral. A prédica e a propaganda tinham outro tema. Predicavam que a religião não consiste somente em cumprir o dogmatismo e o sacrifício, mas sim em amar e obedecer a Deus; praticar a caridade e a justiça; ter piedade do desgraçado; socorrer o pobre; proteger o órfão; defender a viúva; amar o estrangeiro e que estes atos são os que agradam a Deus, tanto ou mais que qualquer outra cerimônia do culto (1,22 S.P.R. Otsar Israel; 1, 37, 2). Ensinavam que a faculdade de discernir e o conhecimento das coisas foram dadas ao homem para que possa separar o que é bom do que é mal e prejudicial, para que saiba o que lhe é necessário, o que deve desejar e odiar a fim de alcançar o que lhe foi destinado, isto é, chegar a ser perfeito e feliz. Declaravam que o homem não foi dotado de pensamento e conhecimento somente para pensar, mas sim para trabalhar, porque todo pensamento e todo conhecimento não são mais que meios, pois a ação é o fim. Proclamavam a viva voz que a vida do homem é uma longa agonia, somente suas aflições ficam, seus prazeres são efêmeros e quase sempre de conseqüências nefastas. Sustentavam que a vida não é mais que um sofrimento perpétuo: sofrimento do nascimento, sofrimento dos dias maus, sofrimento do fracasso e da irrealização dos nossos desejos e ilusões, sofrimento na velhice pela amarga decepção da vida e sofrimento final da morte. Afirmavam que não há mais que um único meio de suavizar a miséria de viver, de tornar a vida mais tolerável: a prática da virtude, e que o único consolo consiste na posse de uma consciência sem mancha e de um coração puro. Os ebionitas tinham também seus signos de reconhecimento e suas reuniões e trabalhos iniciavam-se como em certas sociedades secretas. À pergunta: "Sois ebionita?" devia se responder: "Três principiaram, cinco me completaram e sete tornaram-me perfeito" (Mishná, Sanedrin, 1, 2). O chefe ensinava-lhes que esses números eram sagrados desde a antigüidade e que Moisés havia feito deles um uso misterioso na bênção que ordenou aos sacerdotes: Ievaréchecha Adonai Veíshmerecha, 3; Iaer Adonai Panav Elecha Vihunéca, 5; Issá Adonai Panav Elecha Veiassém Lechá Shalom 7 ("Deus te bendiga e te conserve, Deus te ilumine e te conceda Sua graça, Deus te olhe com misericórdia e te conceda a paz").



Acredita-se que os ebionitas tinham seus signos, seu santo e sua senha e que usavam um "talit" no qual estava bordado um quadrado entrelaçado com um triângulo, em cujo centro havia quatro letras: Iud, Nun, Reish, Iud, que no alfabeto latino se traduz I.N.R.I. cujo significado representava os nomes dos quatro elementos: ar, fogo, água e terra. Em cada ponta do triângulo estavam escritas estas três palavras hebraicas: Fé, Caridade e Esperança, que atualmente são chamadas Virtudes Teológicas e que era o emblema da seita, tirada do sétimo versículo do capítulo 12 do livro de Oséias: "Afirma tua Fé em Deus, pratica a Caridade, e a justiça e põe Nele tua Esperança". À entrada da reunião cada ebionita devia repetir os números misteriosos: 3, 5 e 7, quando então o Mestre respondia com estas palavras: "Filho bendito do nome sagrado: o sublime número 9 simbolizado em Emet (Verdade) é o último ideal do esforço humano, o símbolo da verdade divina; tu podes entrar e iluminar-te com as luzes celestes que claream esta assembléia de sábios".



Ao encerrar a reunião, o Mestre repetia estas frases: "Recordemos que somos ebionitas, os mais humildes e os mais modestos servidores de Deus, da verdade e da justiça; que Deus está conosco - Imanu-El".


CARAÍTAS

Quando o governo judeu já tinha deixado de existir e o judaísmo havia ficado somente nas esferas ético-religiosas, foram muitas as controvérsias havidas entre os judeus, não só sobre assuntos particulares, mas também sobre o assunto básico que foi a admissão da Lei Oral ao lado da Lei Escrita.



Vimos que antes da queda do Segundo Templo já existia esta divergência entre os saduceus e os fariseus. Os caraítas seguem os saduceus e aceitam somente a Bíblia como base da vida religiosa.



O caraísmo foi iniciado por Anan ben David no século VIII (D.C.) e desenvolveu-se por obra de Benjamin de Nahawend na Pérsia ocidental. Com ele, seus sectários tomam o nome de "Bené Micrá", "Filhos da Bíblia", que depois passou para "caraim", o mesmo que "biblistas".



Esta seita desenvolveu-se de tal forma que começou a constituir uma ameaça para o hebraísmo rabínico. No século X, chega-se finalmente à vitória do judaísmo rabínico, com o Gaón Saadiá. Mas o caraísmo não havia terminado. Nos séculos XI-XII propagou-se pela Espanha e no império bizantino, onde ficou até depois da conquista turca. Ao mesmo tempo difundia-se na Rússia; no século XIII é encontrado na Criméia e dali se difundiu por Wolhinia e Galizia. Houve entre os caraítas personalidades destacadas nos séculos XVI e XVIII. No século XIX o sábio Kikowtsh conseguiu demonstrar que os caraítas se encontravam na Criméia desde o século VIII. Baseado nisto foi concedida aos caraítas no ano 1863 a plenitude dos direitos cívicos. Em 1910 havia na Rússia 13.000 caraítas e fora da Rússia, no Cairo, Constantinopla, Jerusalém e Galizia, de 2.000 a 3.000.


HASSIDISMO

Desde o princípio houve duas correntes no seio do judaísmo: de um lado o formalismo ritual da Bíblia e o Talmud e do outro, a tendência ao misticismo, ao ocultismo que criou a Cabalá e o Zohar. Daí a oposição entre fariseus e essênios na época do Talmud e entre talmudistas e cabalistas na Idade Média. O formalismo ritual, tão rigorosamente praticado pelas massas do povo na Europa Oriental entre os séculos XVII e XVIII, tendia fatalmente a produzir uma reação e daí nasceu o hassidismo, isto é, o sistema de "hassid", que em hebraico significa "pio".



Foi fundado no ano de 1740 na Polônia pelo místico Israel bem Eliezer, conhecido pelo nome de Baal Shem Tov: "o senhor de boa fama".



O "hassidismo", que começou por abandonar o formalismo ritual, despertou maior importância ao sentimento religioso que à prática. Proclamou a onipresença de Deus e por isso ordenou que a oração fosse feita com devoção psicológica e alegria especial, até chegar a um êxtase que permitia ao homem entrar em comunicação direta com a divindade. Tornou sua a opinião da Cabala, segundo a qual toda ação humana tem suas repercussões nas esferas do mundo divino e assim o homem pio e justo, o "Tsadik", o ser que chega a despojar-se de todo pensamento material e que vive nada mais que pelo espírito e para o espírito, pode ser suscetível de modificar o curso dos acontecimentos.



Assim como o "hassidismo" teve eminentes defensores como um Dov Beer, Levi Isaac, Josef Ha-Cohen, etc., teve também grande oposição na pessoa do Gaón de Vilna e os "masquilim", isto é, os simpatizantes da cultura moderna.



Seja qual for a crítica que se haja podido fazer ao "hassidismo", este, segundo a opinião de Edmond Fleg, devolveu à alma popular o sentido profundo do divino que a casuística poderia ter lhe feito perder e deu à vida religiosa e social do judaísmo, nos dois últimos séculos, a forma de uma grande originalidade que inspirou a muitos escritores de valor.


ASHQUENAZIM E SEFARADIM

Concluindo, diremos algumas palavras sobre estes dois setores que formam o total do conglomerado judeu do mundo: ashquenazim e sefaradim. Não o faremos analisando a estrutura destes dois setores como grupos irreconciliáveis, tal como fizemos com algumas seitas, das quais tratamos anteriormente. Não excluimos a possibilidade de que em futuro próximo haja um franco entendimento entre eles, que afaste todo o germem da divisão. Consideramos como muito provável, e nossa esperança marca esta direção, que ambos os setores se unam e funcionem num mesmo corpo. Nosso propósito é unicamente responder à nossa juventude, que a todo momento nos pergunta: "Que significam os termos ashquenazi e sefaradi? Quando começou a cisão? Por quê razões começou? Como poderia chegar-se a uma junção entre os dois grupos? etc... etc...". É pois, para dissipar as inquietudes de nossa juventude que tratamos deste tema:



1. - Ashquenazi: deriva do termo bíblico "ashquenaz" (Gênesis, X 3), termo aplicado à Alemanha na Idade Média; é pois um adjetivo gentílico que se traduz por "alemão", seu plural hebraico é ashquenazim ou alemães, título dado ao setor representativo dos judeus da Alemanha, setor que na Idade Média estava representado pelos rabinos deste país.



2. - Sefaradi: deriva do termo bíblico "sefarad" (Obadia 1, 20), identificado como Espanha, o que prova que os profetas do exílio já tinham conhecimento de que um grande contingente de judeus expatriados por motivo da queda de Jerusalém havia se estabelecido na Espanha. O plural de sefaradi ou espanhol é sefaradim (espanhóis). Depois da expulsão da Espanha e Portugal, estes sefaradim dispersaram-se pela Turquia, Holanda, Itália, norte da África, etc.



Até a Idade Média, não parece ter-se feito, em parte alguma, menção de ashquenazim e sefaradim. Neste período da história o pensamento judaico viu-se dividido em dois campos: de um lado, o rabinato do sul da França e Alemanha com Rashi, os tossafistas, Rabenu Guershon, Meier de Rotenburg, etc., que se consagraram unicamente à exegese da Bíblia, da Mishná e do Talmud; de outro lado, o rabinato da Espanha que com a exegese dedicou-se a cultivar a filosofia, a poesia, a gramática, etc.



Eram como dois corpos distintos formados sob condições de vida diametralmente opostas: o primeiro vivia perseguido e sob o feudalismo que apenas o tolerava, vivia sob o terror de expulsões intermitentes que paulatinamente transplantaram esse setor do judaísmo para Prússia, Polônia, Rumania, Galizia, etc. Foi sob a influência rígida destes países que se forjou o pensamento escolástico e dogmático de suas produções e suas obras. O segundo grupo vivia na Espanha em ambientes e condições extremamente favoráveis que lhe permitiam desempenhar um papel destacado em todas as atividades culturais.



De modo que, para diferenciar os que pensavam, escreviam e trabalhavam sob a influência do primeiro setor, chamou-se-lhes ashquenazim e aos do segundo setor sefaradim. Mais tarde, tanto um como o outro nome foram aplicados a todos os judeus dos dois setores. Posteriormente estas distâncias no pensamento se ampliaram até chegar a diferenciar também algumas partes do mesmo ritual. Por esta razão formaram-se dois ritos: Minhag Ashquenaz e Minhag Sefarad, que foram definitivamente instituídos, o primeiro pelos rabinos Simhá de Vitri e Moisés Iserles e o segundo por Rabi Amram Gaón e Rabi José Caro, respectivamente.

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