quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Se eu me esquecer de ti ó Jerusalém!

Excluir mensagem Editar postagens no blog..Jerusalém está presente em toda a religião judaica, desde as orações, passando pelo ciclo da vida e pelas festas, até no sonho do Milênio: o messianismo judaico. Em tudo se vê e em todo o Judaísmo se insere Jerusalém. Não há Judaísmo sem Jerusalém. Vejamos alguns exemplos. A liturgia judaica é complexa; vamos explicá-la sucintamente, sem complicar muito e tentar inserir a Cidade Sagrada nela.

Há mais de dois mil anos os judeus repetem inúmeras orações e oram a D-us, através de uma coletânea de orações denominada Sidur. O Sidur (vem da palavra Seder = ordem; pois há uma ordem nas orações), foi sendo ordenado de maneira lenta e gradual através dos séculos, com acréscimos diversos durante o desenrolar da História. Há costumes diferentes entre judeus europeus e judeus africanos ou asiáticos. Os judeus de origem ibérica (sefaradim = a de Sefarad ou Espanha, de onde vieram e de onde migraram à África do Norte e ao Oriente Médio) têm orações e ordem de leituras, ligeiramente diferente das orações dos judeus de origem germânica ou européia ocidental (ashkenazim = de Ashkenaz ou Alemanha, que é o ponto de origem dos judeus da Europa Oriental, que migraram à Polônia e Rússia na Idade Média). Não são diferenças agudas, mas detalhes e algumas orações adicionais, poesias (piutim), ou hinos sacros ao lado de orações criadas por sábios e poetas medievais ou modernos. No núcleo dos sidurim há trechos que são universais aos livros de orações judaicos, de todas as origens: a matbeia shel tefilá (carimbo ou moeda da oração = espécie de esqueleto do corpo de orações) equivale à parte central das orações. Esta não muda e não há variações sensíveis. A oração principal se denomina “Grande Oração” ou Amidá (de pé = é feita parada, de pé) ou também Shemone Esre (que significa dezoito, pois tinha dezoito bênçãos na sua versão original). Esta oração foi criada no Cativeiro da Babilônia ou no início do Período do Segundo Templo.

Em todos os trechos do Sidur, a presença de Jerusalém é constante.

O espaço e tempo de Jerusalém são absolutos no Sidur. O corpo e a alma da cidade permeiam o texto da oração.

Alguns exemplos para ilustrar. Na metade da Grande Oração / Amidá ou Shemone Esre há um trecho que roga a D-us que: “volte a Jerusalém e que nela habite” (simbolicamente significa que reconstrua o Templo), e que reúna os filhos de Israel e traga-os “dos quatro cantos da terra” e “reúna os dispersos do Teu povo Israel”. É surpreendente ver que o amor a Sion (relativo à Jerusalém, pois um de seus nomes vem do monte Sion, de onde os peregrinos viam a cidade) ou sionismo, permeia todo o Judaísmo. Na seqüência, a oração exalta a justiça divina e conclui dizendo da tristeza e do luto do povo “em luto por ela”... (ela = Jerusalém). Um luto milenar pela cidade amada e que está em ruínas. Na conclusão da benção, afirma de maneira simbólica e dentro de uma expectativa messiânica: “Louvado sejas Tu, ó Eterno, que reconstrói Jerusalém”. Esta oração é proferida todos os dias da semana, sendo levemente alterada nos sábados (Shabat) e nas Festas (Chaguim). Ou seja: há dois milênios os judeus rogam a D-us que reconstrua Jerusalém, por três vezes ao dia, sem cessar, em suas orações. Mas isso não ocorre somente na Grande Oração.

Na celebração do casamento judaico há algumas etapas. A principal seria celebrada sob a cobertura da Chupá (pálio nupcial ou uma espécie de “pequena tenda” sob a qual é celebrada a união). Esta cerimônia pode ser feita até a céu aberto desde que se tenha o pálio nupcial cobrindo o espaço onde estejam os noivos. A última das etapas desta cerimônia é a quebra do copo, pelo noivo. Há diversas versões sobre o significado deste gesto: a mais aceita é que o copo relembra a destruição de Jerusalém e o fato que ainda esteja em ruínas. Ainda que a cidade esteja reconstruída, deve se lembrar que os judeus só retomaram a sua posse em 1948. Por milênios a desejaram e sonharam com a sua reconstrução. Em meio à alegria do casamento os judeus recordam da sua cidade sagrada e abandonada, que segue em ruínas. Vale frisar que Jacob Lauterbach, na década de 20 do século XX, em artigo polêmico questionou esta interpretação do símbolo. Porém, para nosso objetivo, vale a tendência predominante.

Outra recordação de Jerusalém, de sua sacralidade e da “nostalgia judaica” pela cidade destruída e abandonada, está em alguns salmos. O mais famoso e repetido é o conhecido: “Se eu me esquecer de ti ó Jerusalém, que minha destra perca a sua destreza”. Inúmeros salmos a recordam e exaltam. Muitos são inseridos nas rezas diárias ou em festas. Assim sendo, a relação entre orações, Judaísmo e Jerusalém é absoluta. Há dezenas de exemplos que declinamos de citar para não nos tornarmos exaustivos.

Um destes Salmos é repetido diariamente nas orações em ação de graças após as refeições (Bircat Hamazon): relata o retorno a Sion(Shivat Tzion), ou seja, a volta do Exílio da Babilônia e a alegria de rever e reerguer a Cidade Sagrada e o projeto de reconstrução do Templo (que viria a ser o Segundo Templo). A consecução do sonho messiânico. Na consciência e na memória judaica, fica o conceito de que “se foi possível no passado”, pode e deve ser possível novamente num “futuro próximo”.

O retorno citado nas rezas é o primeiro retorno dos judeus à sua pátria ancestral (ocorrido no século VI antes da Era Comum, perto de 530 a.E.C.) no qual liderados por Zerubavel (descendente da Casa de David) e o sacerdote Josué (Yeoshua), um grupo de pioneiros retornou do Exílio da Babilônia (ocorrido entre c. 586 e 536 a.E.C.) a Jerusalém. Esta experiência histórica e esta “primeira reconstrução” da cidade Sacra moldam a “história do futuro”, ou seja, dá o modelo do que virá a ser o retorno a Jerusalém, no imaginário judaico.

Passados alguns séculos do retorno a Sion (Shivat Tzion), os judeus expulsos de sua terra a partir das revoltas contra Roma e da destruição do Segundo Templo por Tito em 70 d.E.C., terão a esperança contida nos escritos proféticos e o sonho messiânico alentando-os que “voltariam a Sion”, tal como no retorno a Sion, e reconstruiriam sua cidade amada. Some-se esta descrição, às profecias messiânicas de retorno e de reconstrução e temos uma rica e sensível inspiração para os sonhos de retorno. Ter o privilégio de retornar a Sion e ser um dos que receberia o Messias no pátio do Templo, era um sonho de gerações. Durante a prolongada Diáspora (Golá ou Galut), que se prolongou por quase dois mil anos, os judeus anelaram o sonho de voltar a Jerusalém. Muitos anciões migravam para Israel, para serem sepultados no Monte das Oliveiras e estar “in loco”, na hora da reencarnação dos “ossos secos” (Ezequiel 37).

No Seder de Pessach (ceia festiva da Páscoa Judaica) se conclui a leitura da Hagadá (narrativa tradicional do Êxodo através de leituras, canções e trechos rabínicos) entoando: “O ano que vem em Jerusalém” (Leshaná habaá bi Ierushalaim). O Messias virá em breve e no ano próximo seremos plenamente livres e viveremos em Jerusalém. Já em 9 de Av (Tishá be Av) os judeus portavam (alguns ainda o fazem) inúmeros sinais de luto. Trata-se de uma data trágica. Nas sinagogas em 9 de Av se repetem gestos de luto, orações de pesar e se jejua pela destruição da Cidade Sagrada duas vezes: em 586 a.E. C. e em 70 d.E.C. Dois mil anos de luto e a ritualização de um dia de jejum durante todos este tempo pranteando a Cidade Sagrada. Trata-se de uma tristeza milenar e de um respeito imenso. Um sonho de “reencontro” que nenhum povo, religião ou grupo teve em qualquer época da História, por nenhuma cidade. Orar e chorar por uma cidade destruída há dois mil anos.

Em minha opinião, quem melhor retrata esta paixão do povo judeu por sua Jerusalém é o poeta e filósofo sefaradi Iehudá Halevi. Viveu em Al Andaluz, (na Espanha atual) no século XI d.E.C., em Toledo. Cristãos e muçulmanos se digladiavam na Península Ibérica e em seguida na Terra Santa, nas Cruzadas. Iehudá escreve um poema sacro dedicado a Sion(relativo à Jerusalém). Exalta a cidade sagrada e diz de suas “saudades por Sion”. Nunca a havia visto e constrói uma imagem baseada no imaginário judaico medieval: ruínas, ervas daninhas, e uma dor milenar. Um vazio e um abandono total. Iehudá sonha com a cidade a almeja vê-la. No final de sua vida vai ao Egito e de lá, ascende a Jerusalém (o termo hebraico Aliá = subida, significa sair da diáspora e migrar para Israel). Sobe espiritualmente e fisicamente.

A parte final do relato biográfico é uma mescla de um pouco de história e muita lenda. Ao contemplar a cidade é morto por um cavaleiro árabe (ou cristão) envolvido numa das guerras ou cruzadas que ocorreram nesse período.

Jerusalém está presente em inúmeras obras e trechos de obras até nos séculos XIX e XX. Alguns autores judeus se inspiraram em sua magia e em seu simbolismo para desenvolver o nacionalismo judaico: o Sionismo. O Sionismo é uma síntese do novo (nacionalismo europeu) e do velho (Judaísmo e Messianismo) , sob um pano de fundo laico e contemporâneo. Não há como separar Jerusalém do Judaísmo e nem negar que Sionismo e Judaísmo sejam no fundo, a mesma coisa.

Ainda que possa haver judeus que neguem o Sionismo e não se identifiquem com Israel. São opções judaicas válidas a nível individual, até mesmo se assimilar e deixar de ser judeu ou viver uma vida judaica alijada de Israel. Ainda que seja legítimo que se critiquem as políticas do Estado judaico: o governo de Israel pode errar como erra qualquer governo. Isso é na esfera da política. Os críticos de Israel não podem separar os judeus de sua cidade e o Judaísmo de seu amor a Sion. Trata-se de um todo.

Separar os judeus de Jerusalém é retirar destes a sua alma, a cidade que inspirou sua História, seus ideais e seus valores.

“Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que minha destra perca a sua destreza”.

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